quinta-feira, 10 de junho de 2010

Elucubrações sobre a linguagem




É muito difícil a constituição do caminho exato que o homem fez para criar a linguagem. O nome entra sim numa classificação construída para ser útil no domínio da natureza. O nome é nossa primeira intervenção positivista, violenta. Justamente por isso a metafísica realista utilizou a necessidade da linguagem para imprimir uma certa imposição de cunho formal, de um mundo além da experiência.  A metafísica parece ter invertido o processo.

Certa vez em uma conversa disse ao Edivan:

"Aristóteles foi bem mais experto. Criou a essência - forma - substância - universal e juntou com a matéria - particularidade - acessório e deu surgimento a questão do substrato. Ou seja, produziu uma teoria em que o particular convive com o universal imanentemente. Nesse caso, a forma em si é ato e a matéria é ser em potência, o movimento é a constante atualização da forma na matéria que dão surgimento aos sínolos (existentes sensíveis)."

Depois perguntei:

"Se lhe dessem determinado material, por exemplo, vidro e o pedissem para fabricar (suponhamos que você tem a arte de fabricar copos) copos, onde está a realidade do copo como universal? Na sua arte, não é? O copo particular deve surgir de um copo imaterial, a forma (definição) na cabeça do artifice. É como se a realidade do copo fosse depositada na matéria para que surgisse um determinado copo. Então o que torna o copo "um copo" é a essência de copo em um copo particular. O que diferencia um copo de garfo ou de um prato, a definição do copo. O que diferencia o copo de plástico de um copo de vidro, a matéria. A teoria de Aristoteles é bem engenhosa."

Por incrível que pareça recebi uma resposta que cabe exatamente em nossa elucrubação: 

"Sobre o conceito de forma em Aristóteles, hoje essas denominações, forma, matéria, substância, parecem ter perdido qualquer validade ou sentido, tornando-se abstrações equivocadas (só uma opinião pessoal). A ideia (forma) do copo não existe como realidade para além do copo, mas já é um conceito, uma derivação linguística retirada da experiência do copo ou do seu próprio ser feito. Ou seja: fazemos o copo, denominamo-os por copo, então derivamos o conceito constituido empiricamente e tornamos a isso uma substância, daí trazemos o fim da operação para o início, como se ele já estivesse lá antes da nossa atividade."

Edivan parece ter explicado como surgiu a metafísica nessas palavras acima. É o que penso também. O homem classificou o mundo e depois tornou imutável a classificação, através das dificuldades de romper com a linguagem.

A metafísica realista utilizou da necessidade da linguagem para imprimir uma certa imposição de cunho formal, um mundo além da experiência. Transformou o nome convencional em forma e definição além dos sentidos. Mas o próprio Aristóteles cai em aporias, pois se a forma é dedutiva no conhecimento e perceptível como relação ao particular, como o homem pode ter certeza que ela existe se ela perpassa o discurso verdadeiro?

Aristóteles fala da intuição, outras vezes da necessidade, ou seja, a definição é captação da essência da coisa, daquilo que ela não pode ser diferente, senão se descaracteriza como ser uno e determinado perante outras coisas. Será que a linguagem, com seus signos pré-formados, não ajuda Aristóteles provar a teoria do ser?

Claro que a necessidade de comunicação impõe certa plausilidade nas questões levantadas pela metaífsica e por isso uma certa recorrência desse mesmo mecanismo de ver o mundo. Tem um livro da Viviane Mosé que trata do tema através de Nietszche. O nome do livro é "Nietszche e a grande política da linguagem".

Diz Viviane Mosé que para abolirmos essa recorrência dos inconvenientes da teoria da identidade, teríamos, primeiramente, que quebrar o círculo vicioso que a linguagem nos impõe.  Assim, mesmo que tenhamos em conta todos os inconientes da utilização do nome, parace-me, que, implícitamente, apoiamos, quando conversamos, toda a forma de classificação "objetiva" que o homem imputa a natureza como "verdade".

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