segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Epistemologia das ciências sociais II




1- Autonomia das ciências humanas:

Terminamos o capítulo anterior destacando o caminho aberto nas pesquisas em sociologia através de Durkheim. Um trabalho introdutório serve somente como um convite à reflexão dos problemas. Não quis trazer qualquer avaliação. Estou colacionando os percalços problemáticos e confrontos que aconteceram na ciência sociológica. Uma leve impressão do primeiro estudo traz uma interligação bastante evidente da metaciência da sociologia com as problemáticas filosóficas. Nesse texto veremos como um debate filosófico bastante acalorado do século XIX entrou no âmago da sociologia e trouxe uma grande renovação nos rumos da sua metaciência e fundamentos. A esquematização aleatória leva a crer que selecionamos autores e descuramos a historicidade. Peço aos leitores desculpas. Quero aqui primeiramente discutir internamente conceitos para depois em um trabalho mais amplo interligá-los às questões e acontecimentos históricos. A captação dos problemas da metaciência nas ciências sociais está no âmago dessas ligeiras resenhas. A nova história das ciências tem questionado, com grande justeza, o procedimento que aqui tenho feito, de relação aleatória e sem qualquer relação do conceito e relações sociais nas quais ele surge. Peço-lhes um pouco de calma, chegaremos nesse ponto!

O positivismo de Durkheim trazia com grande afinco uma defesa da adequação do sujeito ao objeto. O indutivismo mais puro preconizava a total descrição do objeto com abolição dos preconceitos e superstições da subjetividade. Se os dados fornecessem informações que contradissessem valores e tradições, era obrigado o cientista a negar todos os conhecimentos gerais amplamente aceitos sem rastro na realidade, as aparências de verdade. O real só é descrição em discurso quando comprovado experimentalmente. Tudo isso leva crer que o objeto já existe desde sempre, com suas relações constantes, esperando um observador que com paciência e desligado de seus fantasmas possa descrevê-lo com fidelidade. Ao apagar-se, o sujeito tem possibilidade de visualização da coisa, o fato social, estático, com suas qualidades internas e externas. O fato social existe, é exterior, pode ser detectado e espera somente predições que sejam sempre as mesmas para uma situação dada. Embora assim seja, não há mecanismos como em Aristóteles que revelem a realidade e existência das coisas de modo imutável, uma metafísica, chave de conhecimento do mundo, o acesso a essa realidade é dado pela observação da constância dos fenômenos. O fato social é um dado para um observador depurado de seus devaneios tradicionais. No positivismo não há qualquer espaço para influência dos valores e do sujeito nas predições da ciência. As sínteses operadas a posteriori com recurso nos métodos existentes, sejam estatísticas ou de consultas, visam à descrição fiel de algo que está fora da subjetividade.

Depois de Kant um problema que acorreu a diversos filósofos foi o acesso da coisa em si. Kant tinha destacado que as categorias através das quais Aristóteles atribuía valor indelével na revelação da coisa além do discurso não passavam de uma estrutura lógica da mente em juntar dados da experiência. Assim a filosofia de Kant trouxe uma necessária participação ativa  do sujeito na construção dos objetos. Ou seja, não existe um objeto puro sem qualquer participação de uma subjetividade. A constância de um fenômeno não é adquirida por uma depuração e verificação de uma qualidade interna e constante de fenômenos, mas sim pela imposição das estruturas lógicas, sempre as mesmas, nas quais todos os sujeitos do conhecimento se valem para pensar a sensibilidade. Depois das questões levantadas por Kant, pensavam os filósofos, como então poder-se-ia  falar de coisa em si mesma, dados do conhecimento sem participação do sujeito? Como deve ser o acesso da coisa em si mesma? Isso não traz impactos na metadologia dos positivistas que defendiam um acesso ao dado da experiência com a supressão da participação subjetiva.

Foi a partir dessa problemática que alguns filósofos e cientistas passaram a estudar a especificidade das ciências do homem em diferenciação das ciências naturais. Alguns partiram das características do objeto específico das ciências humanas para decretar a autonomia delas das ciências naturais outros centraram fileiras na questão do método. Como suas argumentações tinham procedência do idealismo transcendental de Kant eles ficaram conhecidos como Neokantianos. Dilthey, Windelband, Rickert, Cohen foram representantes dessa virada histórica dos estudos nas ciências humanas. Reviveram o debate filosófico em torno da metaciência das ciências e encontraram novos caminhos para uma fundamentação dos contornos do pensamento científico. Enquanto o positivismo empírico trazia uma abordagem unificante das predições científicas em torno do paradigma das ciências físicas e biológicas, conforme  vimos no caso de Durkheim, a escola neokantiana passa a perceber especificidades do objeto e método das ciências da cultura não encontradas nas famigeradas ciências naturais. 

(continua)


3 comentários:

  1. Jeff
    Parabéns pelo blog Ansinho, li, e gostei do q li.
    *(minha opinião) Acho que n seja possível um pesquisador deixar de lado suas ideológicas, conceitos e preconceitos afim de conseguir um resultado louvável para suas pesquisas. Se vc faz um estudo sobre consumidores de crack, vc ja tem uma visão sobre o que é o crack e de uma forma muito discreta à uma deformação, uma inclinação nos resultados da pesquisa em questão...
    Por mais q fale q n teve nenhuma influência externa, no mais obscuro intimo do individuo, há uma ponta de raciocínio formada sobre o assunto...

    Estou escrevendo de forma rápida e estou sem muito tempo p/ correções, então me desculpe a organização de minha palavras velho amigo rsrsrs


    []'s irmão, fica com Deus e mais uma vez, parabéns pelo Blog, continuarei visitando sempre q possível, é sempre bom ler textos inteligentes nos dias de hj p/ estimular um pouco os neurônios a formular idéias sobre "idéias" de grandes mentes da história.

    tentei postar no seu orkut, mas ele manda tdo p/ sua pasta de spans =(

    Jefferson S Batista (ex-cunhado) ;)

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  2. Oh Jeff que bom vê-lo por aqui. Realmente é isso mesmo, podemos nos deixar apagar quando observamos certos assuntos e problemas?

    abs

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  3. no meu ponto de vista, a propria sociedade é quem formula o raciocínio do individuo, aparecem alguns que vão contra esse raciocinio e que por fim são duramente perseguido por esse grupo de individuos. Posso citar Stephen Hawking, grande cientista q em seu ultimo livro afirma q Deus não participou da criação do universo com base na fisica moderna. Sua visão teológica teve um papel de peso em suas afirmações, mesmo sabedo o grau de dificuldade em comprovar tal afirmação, ou seja, ele n se deixou apagar sobre sua visão sobre o assunto ou problema. Mesmo p/ um famoso cientista britanico de nome conhecido em todo o globo.

    =D

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