domingo, 14 de novembro de 2010

A epistemologia das ciências sociais I





1-      A autonomia da ciência

A sociologia enquanto saber separado das questões filosóficas holistas apareceu em meados da metade do século XIX. A ruptura com a filosofia fora estabelecido como um estágio necessário do saber por Auguste Comte. Os três estágios históricos descritos hierarquicamente do saber teológico, filosófico e científico foi a justificativa para o corte epistemológico e da independência da sociologia ante o saber metafísico do iluminismo. Sem entrar nos méritos do conteúdo ideológico e de classe dessa assertiva, foi a partir dessa tomada de consciência da separação ou da necessidade dela que a sociologia deveria buscar um objeto de estudo para suas predições. O objeto de estudo da sociologia deveria ser cirurgicamente separado do "ente enquanto ente", do estudo filosófico do ser. Nesse passo importante a obra "As regras do método sociológico" foi emblemática. Durkheim a partir das proposições desse livro tenta fornecer os contornos para o reconhecimento científico da sociologia.  Estabelece que a sociologia deve tratar seu objeto como se fosse coisa e deve utilizar o método indutivo para formação de leis gerais que estabeleçam regularidades entre os fenômenos observados. Se as coisas já existem ante um observador, o cientista, do mesmo modo, deve se "apagar", adverte o autor, diante do objeto que estuda. Surge o mito da neutralidade. Tratar o objeto como se fosse coisa era trazer para a sociologia os avanços e os mitos vigentes sobre a ciência natural. Na ciência natural o cientista se ocupa de objetos inertes, bem delimitados, e a partir do recorte desses objetos sensíveis, fornece predições asseguradas com base na experimentação. Durkheim acreditava que a sociologia ganharia em certeza se fizesse o mesmo caminho. A meta do livro era encontrar um objeto dentro do próprio e contra o ente enquanto ente e que ainda fosse diferente de todos os objetos das ciências estabelecidas. A autonomia da sociologia diante da psicologia, moral, filosofia deveria ser estabelecida. Nessa época acreditava-se que toda ciência possui um feudo do real onde a partir dele ela faz proposições com exclusividade. Se fosse estabelecido que uma ciência se ocupa de algo, esse "isto" somente seria descrito com legitimidade se feito pelos cientistas desse ramo de estudo.

                    O primeiro ponto problemático da obra de Durkheim. Sabe-se que várias ciências tratam do mesmo conjunto de fenômenos. A ciência política, jurídica e sociológica, por exemplo, tratam do fenômeno estatal. O que existe é o estado. Desde Aristóteles o que existe é um isto particular que se vê e que pode ser separado para proposições. O mito da substância, justamente, foi o que levou Durkheim, mesmo sem consciência do erro, ao estabelecimento dessa "feudalização" da existência para a ciência. Em Aristóteles só é passível de ciência aquilo que é imóvel e separado. A teoria do ser estabelece que a ciência somente tem possibilidade de conhecimento no ser em ato, uno e separado. A substância, separada por uma definição, a noção de essência, forma um sujeito de predições e ela pode ser separada com base nas categorias nas quais Aristóteles aleatoriamente destacou como propriedades necessárias de todo ente. E nesse passo surgem vários problemas para a sociologia. No caso citado o que existe é um estado, brasileiro, americano ou de qualquer país, de forma fenômenica disposto diante de nossa existência. Como ele se adéqua ao objeto de determina ciência. O que seria um objeto de determinada ciência? Em Aristóteles, todo "isto", o relógio por exemplo, tem propriedades constantes, estabelecidas através das categorias e pelas causas, são aquilo que todos os fenômenos de um mesmo tipo sempre possuem de modo constante. "Todos relógios marcam o tempo". As categorias tratam da identidade, aquilo que não pode ser diferente do que é. "Se algo não marca o tempo com certeza não é um relógio". Todo isto também possui acidentes, qualidades infinitas e que estão espalhados por todos os seres e não os especificam e não estabelecem relações constantes. Os acidentes estão para substância como aquilo que sempre transborda a constante estabelecida de um objeto. "Nem todos relógios possuem ponteiros, são de ouro e de determina cor, nem por isso deixam de ser relógios". Mesmo assim, os acidentes, é preciso levar isso em conta,  são qualidades de alguma coisa e ela somente surge com base na definição da substância, de forma constante, como una e separada. Ser vermelho é a qualidade de algo que existe. Todas predições se referem ao ser.

No estagirista a ciência do estado deveria ser explicada a partir da metafísica. Pois todo o estado deve possuir as categorias aplicáveis a qualquer ser existentes. Na ciência estatal encontrar-se-á as propriedades que o estado possui por si, abstratamente, e as qualidade externas, sensíveis, que ele tem algumas vezes nos estados existentes, as quais não afetam sua qualidade de ser separado e uno. Em Aristóteles como se vê, a ciência é ao mesmo tempo indutiva e dedutiva. É como se o cientista antes de verificar as existências concretas já possuísse um conjunto de mecanismos que facilitasse o estabelecimento das qualidades que  elas possuem de modo constante. Se todo ser possui as categorias do espaço, tempo, substância, estado, o resto é um trabalho de seleção na infinita realidade fenomênica. Aristóteles trabalha com princípios de todo ente, aplicáveis de modo analógico, apesar da individualidade de cada um. E tais princípios não são conquistados de modo empírico por indução. São hipotético-abstratos. A lógica fornece para tais princípios a certeza e a indubitabilidade. No Aristotelismo há uma espécie de quadro de referência abstrato-lógico para o conhecimento de tudo, de Deus até os micróbios. Um sistema uno e concatenado. As propriedades necessárias de um ser trazem em si a universalidade e são abstratas. Ninguém vê o tempo, mas os entes existentes estão no tempo. As propriedades desse tipo não são obtidas por indução, elas são conquistadas por intuição e são evidentes, embora Aristóteles afirme que elas estão contidas e estão no mesmo plano dos seres fenomênicos particulares. O que existe é o ser fenomênico. A ciência somente trata daquilo que existe sempre. Mas a existência, além das categorias, traz  acidentes e propriedades aleatórias integrantes da maioria dos seres. Não existe cópia e real em Aristóteles. Existe somente a possibilidade de demonstração, através do terceiro excluído, do ser em ato através das categorias, a possibilidade de separação da universalidade através da verdade. O isto é formado pela categoria, pelo assessório e pela verdade que capta a universalidade, a identidade do ser. O método indutivo em Aristóteles fornece os acidentes e o dedutivo as categorias e modo de referência de captação do ser. A existência é fornecida pela implicação de ambos. É preciso somente perceber que a constante é abstrata, que a generalidade é marcada pela dedução abstrato-lógica.

Durkheim ao tratar do objeto sociológico traz uma definição de fato social. A metaciência da sociologia assim começa com uma hipótese abstrata, uma seleção de fenômenos com base no discurso. O fato social é geral, coercitivo e exterior. Pode ser que haja tais qualidades na descrição do objeto sociológico, isso é inegável. Como poderia o cientista antes das pesquisas falar de qualidades desse tipo? Durkheim acrescenta que tais qualidades são comprovadas empiricamente, pois são qualidades retiradas da constância dos fenômenos observados e são as mais externas fenomenicamente. Antes de pesquisar e comprovar ele elevou qualidades constantes a um patamar de verdade. A definição de fato social é indutiva sem o ser. Pois antes das pesquisas Durkheim já declinou o seu modo de ser necessário. Não adianta Durkheim advertir os perigos de seu procedimento, de certa forma, ele foi uma recaída no realismo que tanto criticou. Mas a hipótese abstrata deveria ser comprovada empiricamente de modo exaustivo? Na atual epistemologia isso não seria necessário. O problema é que Durkheim se contradiz nas suas próprias recomendações. Advoga um empirismo indutivo e começou sua obra metacientífica com uma definição  de fato social antes mesmo do estudo dos próprios fenômenos sociais em sua existência concreta. Sua postura definiu fato social de modo a priori e de modo dedutivo. Contradição bastante destacada. Outro problema facilmente detectado é a imposição de um método para o estudo de determinada ciência. Pelo sucesso do estabelecimento de leis gerais na ciência natural com base no indutivismo Durkheim achou  de impor  a indução aos seus contemporâneos através de sua metaciência. A indução parte da observação sensível para o estabelecimento de constantes entre os fenômenos. As leis gerais de explicação de regularidades entre  efeitos particulares surgem através do estabelecimento de uma determinada causa de tal efeito. A função é a relação mais constante dos fatos sociais observada em Durkheim, apesar  de toda sociedade possuir uma estrutura que pode ser delimitada. A função quando detectada não é abstrata, não se pode falar de função e sim de funções particulares observáveis empiricamente. O conceito de função estabelecido fica então marcado do mesmo modo como uma hipótese de trabalho. Antes do procedimento se demonstra o que pode ser detectado pelo trabalho da experiência.

Outro erro é falar em empirismo sem trazer qual concepção de indução se está em foco. O empirismo filosófico está na contramão do estabelecimento de leis gerais entre fenômenos. A proposição vale para o particular observado e não para todos os eventos particulares passíveis de ainda existir no curso da realidade. Longe do estabelecimento de leis gerais o empirismo filosófico se confrontou com todas as idéias não detectáveis na sensibilidade. A causalidade não é um conceito verificado no contato com a experiência, o que se vê é um caso particular que tem semelhança com outros e isso fornece ao raciocínio a chance de atribuir certa noção de regularidade. Se fosse dedutivo o princípio da causalidade seria necessário, mas como é indutivo tem como princípio norteador a probabilidade. Pela experiência há mais chance de que o fenômeno visto sempre, de modo semelhante e nunca igual,  se dê da mesma maneira, mas nada torna válido que por um irresistível causalidade ele sempre seja do modo descrito pelo discurso. Através do próprio empirismo filosófico a idéia de função de Durkheim seria rechaçada de várias maneiras. A noção de regularidade que ela acompanha seria criticada, como também seu contorno abstrato como conceito não correspondente aos efeitos reais vistos no mundo empírico.

2-      Conclusão:

Durkheim parece ter lido Bacon e transposto suas proposições para sociologia. Falou inclusive de ídolos como Bacon e tentou fornecer o corte epistemológico entre a sociologia e outras ciências. Fez questão de mostrar como preconceitos tornaram problemáticos os caminhos de estabelecimento da sociologia e funcionavam como entraves epistemológicos. Porém, as ciências naturais funcionavam como um paradigma de como fazer ciência e se impuseram dentro do estudo da sociedade. A transposição das noções das ciências naturais foi importante para essa tomada de consciência da autonomia da ciência do social, entretanto ainda fornecia diversos caminhos de críticas aos estudos sociológicos.  A própria noção de objeto da sociologia em Durkheim era muito próxima do realismo e do empirismo científico Newtoniano e era  facilmente criticável pelo manejo do empirismo filosófico Humeano ou Lockeano. Amplos caminhos ainda eram possíveis à sociologia. A noção de método exclusivo e da adequação sujeito/objeto não foram exaustivamente trabalhados. A filosofia já tinha demonstrado em alguns escritores que o sujeito não capta o objeto em si, outras  procuravam tornar relativos todos os objetos de conhecimento. A incipiência de tais teorias quando aplicadas à sociologia trouxeram novas problemáticas. O sujeito realmente abole-se em contato com o objeto, existe mesmo um objeto da sociologia? O mundo dos valores não influência o contato do homem com seu mundo? A oposição de valores na sociedade não impõe um componente de escolha, probabilístico, irracional e sentimental no saber de qualquer realidade? O idealismo tornar-se-ia a bola da vez da sociologia a partir de Durkheim. Tal competição acirrou  o debate da sociologia e ciências naturais. É o que veremos no próximo capítulo. 

2 comentários: