No epitáfio do rei Sarnadapalo encontrava-se a seguinte mensagem: "eu Sarnadapalo ... comi, bebi e fiz orgias, o resto não vale isso". O nome do rei figura então como um adjetivo de quem coloca o prazer acima de qualquer bem da vida. Na modernidade tardia, mais do que nunca, vive-se cada vez mais sob o império da endorfina e outras drogas do cérebro e o mercado sabe muito bem como deixar todos seres humanos nas teias da dependência dos neurotransmissores. O indivíduo, acostumado então ao estímulo do prazer insaciável, transforma-se em comprador compulsivo e quando não desempenha tal atividade tem crises de abstinência. Não existe nos tempos atuais algum fim estável da ação ou uma grande meta ideal de comportamento. Se um termo do desejo existisse, o estímulo necessário ao sucesso da propaganda esbarraria em limites e criaria uma estagnação da economia. As compras esbarrariam no homem satisfeito.
Se hoje o bem mais aplaudido consiste no prazer que é mirado pelas ações de todos os homens, em algum tempo atrás da história, tal bem não figurou como atributo indispensável do agir correto. Pensava-se que a vida mais correta no ser humano consistia em agir de acordo com sua faculdade mais excelente, em busca do fim mais supremo, a felicidade. No "República" Platão procurou demonstrar que a ética é um comportanto dirigido pelo intelecto e pelas idéias. Do mesmo modo, seguindo as tendências deixadas por Aristóteles, Tomas de Áquino descreveu que a ciência de deus traz o agir mais adequado para o homem e que a felicidade era granjeada pela ação de acordo com a ciência supremo do criador. Assim, toda a metafísica era um freio aos desejos humanos e colocava amarras nas aventuras do ser finito. Por isso o capitalismo quando surgiu precisou desmistificar o mundo, em um processo de desencantamento das explicações. Hoje ela destrói inclusive suas próprias promessas.
Dostoievski preconizou que com a morte de deus tudo seria possível para o homem. A morte da metafísica e o ecomio anárquico da vida prazerosa em detrimento de qualquer valor congelante traz consigo a possibilidade da renovação de desejos por um mercado ávido para produzir insastifação constante. A voz do russo foi aplicada, mas trouxe o avanço do capitalismo destruidor, sem limites, sempre renovado. A violência do capitalismo agora encontra mais espaço para fluir. Destruiu seus últimos limites, as idéias, os ideais de vida, as tradições, os mitos de felicidade, as ideologias de classe e de reconhecimento pelo trabalho. Decerto que ele ainda esbarra em algumas religiões do oriente. Elas ainda resistem, mas a endorfina pulsa por trás das burcas. Logo os irmãos do oriente caíram de vez nas teias da dominação do prazer.
Marx dizia que o capitalismo passaria por um crise estrutural e forneceria, por suas próprias contradições internas, o espetáculo do fim das relações sociais baseadas na mercadoria. Penso diferente. O capitalismo cairá por uma crise de overdose ou por um processo de "crackização" dos indivíduos. Outro assunto, outro texto, outras divagações. Mas penso que uma reabilitação dos ideias de vida traria pequenas crises pontuais ao sistema. A metafísica é um sistema de conhecimento oposto as tendências de mercado do capitalismo tardio. Por isso, um espertalhão viu bem, quando cantou o fim das metanarrativas. O capitalismo libidinal é inimigo do agir racional e da comtemplação intelectual, apesar de todo Shopping Center possuir um nicho de mercado reservado aos pseudo-intelectuais como eu.


Nenhum comentário:
Postar um comentário