Pensando sobre pós-modernidade lembrei da “mentira nobre” de Platão. Esse filósofo grego reflete sobre a necessidade de mentiras em determinadas situações. Ninguém, por exemplo, dá uma arma municiada ao louco, sempre inventa uma mentira para demovê-lo da idéia. Nesse caso, a mentira deve ser perdoada em virtude da causa. Esse mesmo tema é retomado quando Platão aduz a necessidade da instituição de um mito quando do surgimento do estado - criado a imagem da idéia. Quem deve criá-lo, claro, são os tecelões do social, a Aristocracia intelectual. O mito é uma mentira nobre quando criada a imagem do verdadeiro, ajuda os fracos ao conformismo.
Creio que são necessárias “mentiras nobres”, perspectivas mais fortes, que perpassem o social como se fossem universais e objetivas. Elas evitam a fruição dos conflitos, sem algumas medidas básicas. O mito inclusive pode ser uma ferramenta utilizada para expansão do poder social, sem os transtornos da anarquia. Sorel acredita piamente na força do mito na superelevação da potência. Como diz o brocardo, “a fé move montanhas”. Noutros tempos, os mitos cumpriam um papel importante, evitavam a fruição desordenada de desejos, impunham fins de vontade, condicionantes, impediam o aleatório, eram a concatenação das regras de jogo para os conflitos, onde eles tinham todo um traçado, com remédios, cenários, válvulas de escape.
As grandes narrativas eram o discurso da pacificação de desejos, o caminho do vir-a-ser deles. A metafísica sempre foi uma tentativa de controle do pathos incontrolável, tanto da sociedade quando da ciência, um limite, um fim. O mito da razão, da dialética, da objetividade, pode ter sido um modo de controle das potencialidades destrutivas dos "zangões", liberá-los consiste na abertura para a possibilidade de perversão, que não se constituirá em nenhum avanço de potência da espécie, somente destruição sem muitos ganhos. A universalização da perversão de Sade é o reverso da força, é impotência. Vidas ameaçadas não podem pensar no crescimento, somente em concatenação de defesas. É o que vemos em nossa sociedade.
Por isso, acredito que os mitos eram importantes. A destruição dos mitos tiveram como conseqüência a própria falta de critérios para aferir a “potência”. A violência não é crescimento sem uma dose de pacificação. Pra mim, a pós-modernidade está liberando os "zangões", destruindo os mitos, as grandes narrativas, sem colocar em pauta qualquer alternativa, somente elevando ao plano supremo, o fetiche da destruição anárquica. O cuidado de si é a defesa desenfreada dos particularismos. É bonitinha. Mas é preciso reavaliar possíveis custos políticos. É preciso reavaliá-lo dentro de nosso campo de forças. Por que Foucault criou sua teoria quando já estavam presentes o início de liberação das amarras. Por que o maio de 1968 - aqueles meninos campeões do cuidado de si - liberou espaços para o capital implantar reino em diversos nichos de mercado. Às vezes penso, numa argumentação marxista mesmo, que o capital faz certos teóricos da "esquerda", porta-vozes de sua própria expansão.
Existe mesmo um perigo imenso quando desqualificamos o poder da razão, da teoria, sob o argumento do instinto e das afecções corporais. A relação agosnística, quando não partimos para a moralização de contra-poder, pode ser usada de diversos modos, e um deles pode ser a negação do outro, utilizado como meio de satisfações de diversos apetites. Penso que quando trazemos o ecomio da força - afecção - sempre além de qualquer medida, aí sim, é possível tanto pensar numa relação de riqueza ou de pobreza, sem parametros racionais para atribuir quando um determinada acão ou reação é melhor ou pior, somente os mesmos argumentos biológicos.
É preciso perguntar: queremos mesmo muitos tiranos ou um só? Penso que não há diferença alguma. Então, vejo com maus olhos, tanto um alternativa quanto a outra. Foucault dá cria a um postura neo-anarquista muito atraente, mas deixa um campo em branco para a alternativa da perversão. Como detectar se o exercício de uma relação é melhor que outra. Devemos pensar que uma afecção boa é aquela que reage, em benefício do si mesmo, as afecções de domínio do cuidado de si, imposto de fora, ou como faz Nietszche, é boa quando sobreleva a espécie, fortalece, vigora.
Na época de Foucault a preconização do ser livre ainda tinha todo um romantismo. Mas pensemos Foucault hoje. A teoria dele justificaria o narcisismo, o cada um por si sem regras básicas de convivência, o não aderir as causas de todos. Falta algo na teoria de Foucault. A amizade mais singela, onde as afecções criam laços entre seres que não tem o condão da submissão mais explícita, pode ser justificada como um prática microcapilar de libertação e cuidado de si com base na teoria de Foucault. O homem bomba também. O fetichismo do seja você mesmo, seja diferente, através das compras, também.
Sabemos, pois, que hoje temos a formação de outro diagrama. O espéculo monárquico parece retornar, mas sob um impessoalidade não existente na época dos grandes reis. O ritual agora encontra-se estampado de forma mai visceral em todo o social. Enquanto o espétaculo do rei não conseguia erraizar-se nos pontos mais limítrofes do controle, hoje o signo perpassa cada canto, atingindo, com suas afecções, quase todos os membros, através de um simbologia que acompanha as mercadorias.
Hoje, tornar-se diferente - e igual ao mesmo tempo - se deve a mediação do ato da compra, cuja necessidade imposta pelos mecanismos de sujeição, é a engrenagem do circuito onde perpassa toda a rede de poder. Para o implemento desse outro diagrama, foi montado outros dispositivos, os quais agem para a criar desejos e fins dos desejos. Para tanto, desmontou-se a rede rígida do apolíneo da disciplina. Os valores compartilhados, impediam a criação dos pequenos narcisos. A partir daí, depois da desmontagem, a sociedade preconizou, em todos os cantos, a criação dos pequenos facistas, que fazem de tudo para satisfazer seus apetites.
O surgimento dos facistas-narcisos foi fruto também da deslegitimação da teoria pelos chamados pós-modernos. Esses, com teorias "pastiches", comenteram um regicídio contra a razão, pesando, muito infantilmente, que estavam libertando, quando na verdade estavam justificando uma nova roupagem do poder e do capital. Foucault, o rei dos neo-anárquicos, é sempre o avatar preferido desses indivíduos aredios as regras, que pensam com a cabeça de baixo, os "zangões" da República de platão. Penso que os pós-modernos tiveram uma pontinha de culpa nesse medo atual.
E quando defendo novas alternativas, não estou aqui defendendo, homens carismáticos ao estilo dos super-homens Nietszcheanos. Defendo alternativas, dentro mesmo daquelas velhas noções de ideologia, remediadas do perigo de negação do outro também. Quando refletimos na criação do mito sempre pensamos na relação sujeito-objeto, típica de nossa forma de pensar instrumental. O mito, ou a própria dinâmica do mito, não surge assim, somente de uma cabeça pensante, como pensava aquela corrente.
Existe formas de evitar o descambar de mitos para o tudo ou nada. A nova retórica tem pensado em procedimentos de discurso que evitam isso. A razão comunicacional também. A unidade na multiplicidade não precisa abolir a multiciplicidade, até porque a critavidade e a força está na multiplicidade. A unidade é somente uma apresentação momentânea do equilibrio de forças.
O mal dos Nietszcheanos é sempre pensar uma imposição de cima pra baixo, através da vis compulsiva. O mito pode muito bem surgir de baixo pra cima, por uma via discursiva e comunicacional. O mal não está no limite para o meu desejo, o ruim é não ter eu participação na constituição desse limite. A razão comunicacional tem esse mérito. Destrói essa relação de sujeito-objeto e coloca em seu lugar uma relação de sujeito para sujeito. O mito pode surgir daí, nos procedimentos de liberação dos defeitos da comunicação. Claro que aí já não poderíamos falar de mentira. A transparência é fundamental em uma discussão.

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