quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A moralidade na Teoria de Kant e Hume

O homem acredita ser superior aos animais na escala evolutiva. Credita a si mesmo ser o único ente capaz de ter ação moral, vontade consciente e livre arbítrio. Embora isso seja uma sentença aceita pela maioria das pessoas, as provas filosóficas dessas qualidades no homem não são tão pacíficas. O pensamento espontâneo e a vontade livre encontram teses opostas que negam essa suposta liberdade do homem. À primeira vista, as questões morais seguem os mesmos problemas referentes aos fundamentos da razão e do verdadeiro, até porque o homem não só pensa, mas também age na prática através de planos. Porém nem sempre as idéias são os móbiles da ação, do mesmo modo como também nem sempre as idéias surgem originariamente no sujeito. As paixões contribuem para mover o homem em direção de determinados objetivos. Em vista disso, os debates sobre a moralidade são muito complexos, envolvem inúmeras questões. Por exemplo, nas questões morais surge a questão de saber se a razão ou os sentimentos são determinantes nas escolhas e móbiles comportamentais, se o homem possui livre arbítrio ou se ele segue as necessidades impostas por sua condição natural e fisiológica, se o homem é espontâneo ou é levado a agir por motivações de bens exteriores. Essas questões envolvem a questão da liberdade. Surgem dúvidas sobre se o homem é livre dos impulsos naturais ou é escravo dos determinismos das leis da natureza. É comum pensar que se ficasse provado a origem das regras morais a partir de uma autolegislação do sujeito, com base na razão, isso seria prova irretorquível da liberdade humana. Do contrário, acaso as regras adviessem de impulsos e motivações estranhas à razão, estaria comprovado o determinismo e falta de livre arbítrio no homem. Por muito tempo pensou-se que a razão fosse determinante nas questões morais. O livro “A República” de Platão, por exemplo, é uma Metáfora sobre a Ética. Nesse livro o homem é livre quando age por meio do intelecto e escravo quando é movido por suas paixões. Para Platão, o comportamento do homem é composto por três almas, a racional, a passional e a apetitosa, que seriam equivalentes aos três móbiles da ação, a razão, a paixão e o corpo. Para Platão, o governo dos comportamentos no homem deve sempre ficar a cargo de intelecto, porque a paixão é um móbile contingente e de menor valor. Para existir um agir livre, diz Platão, o homem deve ser governado pelas idéias do intelecto com a ajuda coadjuvante da paixão. O homem quando é escravo, é servo do seu corpo, do passageiro, do vulgar. As imposições da carne, os desejos, seriam como equivalentes ao lado animal do homem, uma deficiência da cópia da idéia de homem, pois o homem enquanto forma é racional por excelência. Essa temática sobre o papel da razão sobre os comportamentos humanos foi herdada pelos racionalistas do século XVI e XVII. Para eles, como Platão, o fato de o homem se guiar somente pelos sentidos e pelas paixões era um fator de negação da liberdade. O homem só é livre quando guia seus comportamentos pelas idéias inatas, criadas por Deus. Como ocorreu com a teorização das idéias, os racionalistas desprezaram os desejos do corpo. Para essa corrente filosófica, o comportamento deve se libertar das necessidades corporais se quer ser considerado livre de interesses contingentes. Para os racionalistas as idéias inatas seriam os sinais objetivos que os comportamentos deveriam seguir. Um comportamento bom é aquele que visa e age segundo o verdadeiro. No racionalismo a sabedoria é um estado e uma conduta nos quais “a inteligência mostra à vontade o partido que ele deve tomar”. Desse modo, as metas da ação são exteriores aos indivíduos, são heterônomas. A idéia de bom que perfaz o agir reto é uma lei que o sujeito absorve quando percebe a evidência da idéia. Na corrente de pensamento racionalista o concurso do entendimento é importante para o agir livre em conformidade com o bem. O sujeito recebe suas idéias pela correta adequação aos objetos, pela evidência, e a vontade é guiada por um interesse que está constituído fora dela. Segundo essa concepção, a lei ética é sempre heterônoma e livre dos erros dos sentidos. A lei ética está acima dos desejos do corpo e isso significa a liberdade. Nesse caso, o homem só possui vontade quando guiado pelo objeto racional. Ele tem livre arbítrio para sair do erro, dos determinismos corporais e vontade para procurar a felicidade além dos interesses contingentes do dia-a-dia, corruptíveis e passageiros. A vontade do homem é correlata a sua capacidade de alcançar a verdade dos objetos e deve se guiar por eles se quer considerada objetiva, livre de preconceitos individuais. Os racionalistas desenvolveram uma noção ética objetivista, determinando de antemão o valor de todos os bens mirados por uma ação para que ela se considerasse ética, e ainda destacaram o papel do entendimento nessa importante questão. A ação boa é julgada pelos fins que busca, quando eminentemente racionais é considerada ética, quando não, ela não é livre e é escrava dos erros e das paixões. Assim, do mesmo modo que nas idéias, existe um dualismo no mundo da moral. O mundo sensível não leva o homem ao livre arbítrio. Na concepção racionalista, as necessidades corporais condicionam o querer a finalidades de menor importância. Tais imposições somáticas sempre levam o homem para um sentimento particular que é incorporado de modo subjetivo e contingente em cada homem. Bem ao contrário acontece com o mundo racional, esse mundo eleva o homem à liberdade das coisas do dia-a-dia e fornece as bases para uma ética objetiva, válida para todos os homens. Mas como o sujeito pode saber se suas idéias correspondem aos objetos e se seu comportamento atingiu o bem? Para os racionalistas é a ligação com a noção de Deus que proporciona a evidência e objetividade do conhecer. O homem e as idéias inatas foram criados pela perfeição divina. Se o homem consegue percebê-las é porque ele é capaz de produzir verdade. A noção ética arvora-se nessa questão para determinar o caminho da felicidade para todos os homens. Portanto, é bem explícita a ligação entre a teoria do conhecimento e a teoria moral nos racionalistas. O sujeito, tanto no ato de conhecer quanto na vontade, é passivo. Ele recebe seus objetos e bens prontos e acabados. A evidência da idéia conduz ao bem e o bem se constitui a finalidade do agir humano, a felicidade universal, igual para toda vontade humana, a qual sempre passiva nesse sentido, segue-a, mas não a cria. Nesse ponto, o homem não parece ter livre arbítrio na escolha de seus bens, apesar da disposição volitiva para procurá-los. Ele sempre é levado a escolher sempre os mesmos objetivos descritos pela verdade, possível para todos os homens, e só tem vontade (livre arbítrio) para fugir do erro, mas não escolhe o caminho da felicidade. Tudo no racionalismo é objetivo, a idéia e a finalidade são dispostas exteriormente a todos os sujeitos, são heterônomas. Leibiniz, por exemplo, falava em harmonia Universal provinda do entendimento divino. Os livros de Leibiniz são quase teodicéias que justificavam e conciliavam a idéia de Deus com o pensamento racional. E o papel de Deus na moralidade em Leibiniz não deixa de ser destacado. Para Leibiniz Deus “é o monarca da mais perfeita república composta de todos os espíritos e a felicidade desta cidade de Deus é o seu primeiro desígnio”. Para Leibiniz, os homens criados a perfeição de Deus devem espelhar em si a harmonia divina. Todos os indivíduos em geral terão como tarefa moral realizar o desígnio de perfeição e harmonia tanto quanto lhes for possível. O homem deve imitar a perfeição Divina procurando através de seu agir encontrar, através da verdade, o caminho mais correto. Por isso é possível a afirmação de que o perfeccionismo moral de Leibniz é baseado na ordem da criação, dada aos seres humanos independentemente de sua escolha. Como a perfeição divina implica a perfeição moral, Deus é apresentado como modelo a ser imitado; daí se segue o caráter de imitatio Dei que a vida moral assume. Nessa perspectiva, a moral em Leibiniz é fundamentada em um ente exterior ao indivíduo e é heterônoma. O problema é determinar de forma pacífica a finalidade objetiva da vontade. O racionalismo criou teses opostas na explicação da moral. Muitos filósofos procuraram determinar de antemão o caminho da felicidade para todos os homens e caíram nas contradições. Se fossem seguidas as teorias racionalistas, as vontades individuais deveriam conformar-se a finalidades exteriores contraditórias. Isso de certa forma colocou em descrédito a confiabilidade do púlpito na razão quando essa se predispôs na explicação das questões morais, o que era motivo, segundo alguns autores, da anarquia vigente naquele tempo. Diversas teorias racionalistas disputavam a descrição da felicidade universal e se auto-anulavam em teses contrárias. A concepção empírica da moral, de forma semelhante ao que defendeu sobre as idéias, procurou fundar a moral na experiência. A concepção empírica procurou discursar sobre a moral observando os comportamentos constantes dos homens, sem recorrer às análises de causas remotas sobre os comportamentos ou a objetivos abstratos dispostos em todo agir. A ética seria como a idéia, uma indução das experiências sentidas. Ao contrário dos racionalistas que deduziam a ética da idéia inata de bem criada por Deus, os empiristas procuraram a descrição dos comportamentos humanos para depois inferir quais relações éticas são mais próximas da espécie humana. Essa tarefa praticamente sacrificou o caráter normativo da moral, pois, no caso da descrição, os empiristas se satisfaziam com a simples explicação do que “é” e não se preocuparam com o “deve ser”. Os empiristas aboliram o caráter dualista da vontade, uma faceta constante da definição racionalista. Se no racionalismo a vontade do homem particular sempre era cotejada com a norma objetiva enquanto “deve ser” e o comportamento era avaliado pela proximidade ou distância da finalidade universal disposta enquanto objeto do agir humano universal, o empirismo não acredita nessa divisão entre o fático e o padrão de comparação de felicidade universal objetivo, típico da tese das idéias inatas. Esse normativismo abstrato é abolido na concepção empírica. A moral é fruto de certa conformação natural no ser humano, decifrável com base no método indutivo. A constância dos efeitos da ação, segundo os empiristas, poderia levar à descrição do comportamento como ele “é”, ligado a constituição do sujeito, não enquanto deve ser, norma abstrata do pensamento, por meio da qual é se comparado o real concreto das ações, mas sim enquanto disposição natural imanente. Os motivos que levam o homem à ação não são buscados pelos empiristas em alguma idéia inata de bem que prescreve dever hetoronomamente, mas sim nas inclinações naturais dos homens para determinados comportamentos. Para os empiristas, por mais brilhantes que sejam os deveres de bem deduzidos abstratamente pelos racionalistas, eles não vingariam acaso entrassem em confronto com a constituição natural dos homens. Acreditavam os empiristas que sem a força das motivações, naturais e sensíveis, o dever seria apenas uma quimera, uma miragem em paisagens metafísicas. A concepção racionalista logo recebeu um duro golpe e a moral foi desligada dos desígnios divinos. A ligação entre moralidade e religiosidade foi alvo de inúmeras críticas pelo cético Bayle. Para esse filosofo uma sociedade de ateus poderia ser mais decorosa com relação às regras morais que uma sociedade exclusivamente formada por religiosos. A partir dessa hipótese, Bayle tentou desvincular os bens morais de sua interligação com as questões de religião, como era feito de forma implícita no racionalismo. Para Bayle, a felicidade do homem não depende de Deus. Maior radicalidade promoveu Vauvenargues. Para esse Francês o homem não age movido pela razão, uma herança dos estóicos. Na maioria das situações concretas do dia-a-dia o homem é idêntico aos outros seres da natureza, e age movido por seus instintos naturais. No livro “Introdução ao conhecimento do espírito humano” Vauvenargues diz que a natureza do homem não consiste em sua razão, mas principalmente em suas paixões. A razão não é diretora das paixões. Para Vauvenargues, as engrenagens do agir humano e seus primus movens são pulsões primitivas, originárias e irresistíveis, oriundas de um domínio diferente, absolutamente irracional, as paixões. Muitos enciclopedistas no século XVIII seguiram essa linha de análise das questões morais, o mais famoso, Diderot, acreditava piamente na impossibilidade da tese estóica de controle exaustivo das paixões por meio do intelecto. Mais ou menos nessa linha, Hume, seguindo outros empiristas, também se opôs ao pensamento racionalista. Os racionalistas diziam que era inerente á razão humana a distinção entre o justo e o injusto como bens e fins da vontade, ao mesmo tempo em que defendiam o voluntarismo do sujeito em buscar tais bens sugeridos pela razão objetivista, congênita e inata no homem. Hume não acreditava que fosse a razão a determinar aquilo que o homem diz e faz, mas sim os sentimentos. Hume dizia que é um fato constatado na experiência à aprovação e desaprovação de comportamentos. Os homens sempre produzem juízos acerca de comportamentos, determinam comportamentos ruins e bons e exigem dos outros homens aquiescência a esses juízos. Para o filosofo inglês, empirista, é um fato a existência de juízos morais. Há juízos que enunciam estima por certas ações, bem como juízos que enunciam reprovação e indignação. É um fato constatado na experiência que os homens criam juízos acerca de determinados comportamentos e procuram vergar o maior número de pessoas nas exigências de seus juízos. O homem emite juízos e exige dos seus pares na sociedade comportamentos correspondentes. Quando o homem aprova uma determinada ação quer ela efetivada e quando desaprova sempre procura afastá-la. Foi a partir dessa constatação que se desenvolveu a teoria de Hume. Ele pergunta: qual seria o fundamento de tais juízos morais? Eles provêm da razão ou da emoção? É assim que Hume procura determinar a origem dos princípios morais. Como empirista Hume só poderia detectar essa origem naquilo que é perceptível aos sentidos. Ao contrário dos racionalistas que deduziram as regras morais de princípios tidos como finalidades objetivas inscritas no homem por Deus, Hume procura detectar tais regras observando seus efeitos na experiência concreta. Para Hume o fato mais perceptível nas questões morais são os sentimentos de aprovação e desaprovação de condutas. Como ele diz, “dado que esta é uma questão factual e não um assunto de ciência abstrata, só podemos esperar obter sucesso seguindo o método experimental e deduzindo máximas gerais a partir de uma comparação de casos particulares”. Observando os casos particulares onde os juízos de aprovação e reprovação de condutas são manifestados, como também as diversas qualidades morais que surgem no cotidiano humano, Hume observou que todos os sentimentos morais estão ligados a utilidade que eles possuem para o beneficio do próprio indivíduo isolado que os demonstra ou para a espécie como um todo. Nos estudos das relações intersubjetivas Hume destaca que a utilidade acompanha todas as atitudes e ações que, do ponto de vista moral, o homem tem apreço. Portanto, os juízos morais têm ligação intrínseca com os interesses e paixões. As paixões fornecem ao homem os interesses, produzem os desejos e a razão prática é guiada por eles a fim de buscar satisfação através da avaliação de fins e meios. A razão é escrava das paixões. A razão procura os meios para efetuar a satisfação de desejos e esse fim faz cálculos das vantagens. Por isso, Hume diz que os juízos morais possuem como fundamento o sentimento, são imagens mais fracas de impulsos corporais e passionais no homem. O intelecto somente avalia os meios para efetivação de interesses provindos das paixões. Desse modo, os juízos morais são avaliações particulares, pois sempre são criados com base nas circunstâncias do momento de cada indivíduo singular e não são válidos para todos os casos dos homens universalmente. Eles visam a promoção dos fins postos pelas sensações. Do mesmo modo como nas idéias, os juízos morais são cópias mais fugazes da compleição sentimental do homem. Os juízos morais nunca formam regras universais. Os homens possuem tendências particulares específicas com relação aos sentimentos. Todos os seres têm propensões variáveis, uns são mais suscetíveis que outros a determinados tipos de paixões. Por isso, os planos morais sempre são determinados por essas características singulares de cada homem, cuja manifestação nunca é a mesma nos diversos momentos de exercício da moralidade. Os juízos morais, segundo Hume, sempre serão juízos singulares mesmo que escondam essa qualidade, apresentando os juízos morais de um ponto de vista Universal. Para Hume é fato constatado na experiência comportamental humana que todo o homem busca o prazer e evita a dor. É a partir desse cálculo de vantagens que o ser humano julga as ações e cria seus juízos e planos morais. A moral sempre é fruto de um cálculo individual ligado às diversas situações em que o indivíduo se encontra. As paixões fornecem as bases empíricas e sensitivas para o julgamento do entendimento relativo às concepções éticas. Não existe uma regra moral válida para todos os casos, infalível para situações particulares diferentes, o que determina se uma moral atingiu seu fim são seus efeitos no caso concreto, são as conseqüências que ele possui para o benefício do particular, em outras palavras, a utilidade. Cada homem busca seu quinhão e deseja que os outros homens se guiem por seus interesses. O juízo moral é desse modo um juízo de conveniência. É uma busca de prazer por intermédio do entendimento que estabelece regras de conduta convenientes aos interesses despertados pelas paixões. É sempre um juízo hipotético e nunca é igual nas diversas situações, não vale universalmente para todos os homens e, além disso, é contingente pois somente visa interesses sensitivos e passageiros. Hume criou uma ética solipcista baseada no amor de si, embora um pouco relativizada por conta da detecção de um outro princípio no Homem. Porém, é possível afirmar que nos contatos intersubjetivos o cálculo egoísta pesa mais que o cálculo da simpatia. Hume influenciou muitos sequazes. Muitos autores continuaram nessa tradição do cálculo interessado do amor de si como o principal motor do agir ético. Adam Smith compatriota de Hume destaca os benefícios da busca da felicidade individual para o todo social. Mandeville na fábula das Abelhas não ficou atrás. Esse autor conta de forma irônica como os vícios particulares dos indivíduos são de algum modo promotores do bem estar coletivo. Para Mandeville, como em Hobbes no estado de natureza, toda moral é um vício vertido como santidade. A tradição Humeana também fez escola no século XIX. Hume influenciou Benthan e Stuart Mil que, por sua vez, foram grandes defensores do princípio do prazer. Mas Hume não só destacou o amor de si como sentimento importante para o agir humano. Hume percebeu também nos casos concretos da experiência que os Homens muitas vezes se colocam no lugar daqueles que sofrem, são passíveis da empatia com os problemas alheios. Os juízos da moral são também motivados pela simpatia. É partir da preocupação com o próximo que há a possibilidade do surgimento da sociedade, da justiça e das regras de direito. Nessa perspectiva, o que se percebe é que Hume criou uma ética consequencialista que se importa mais com aquilo que acontece nos efeitos particulares dos comportamentos, descrevendo-os, não se preocupando com o normativismo do deve ser ou qualquer finalidade universal dos comportamentos, vigente nos racionalistas. Os juízos e as qualidades morais, ao contrário do racionalismo, são julgados pelas suas conseqüências na experiência, pela utilidade que possuem na vida dos seres particulares. Uma ação boa é aquela que produz prazer e benefícios para o sujeito da ação, como também para sua espécie. Nunca um princípio é deduzido como no racionalismo. O empirista não se preocupa com as causas remotas dos princípios morais, eles procuram os móbiles da ação na própria natureza do homem, nesse caso, nas paixões. A corrente empirista, ao contrário da racionalista, não funda o agir moral na dedução de finalidades exteriores aos indivíduos com base na razão pura. O principal móvel do agir humano são os desejos nascidos das paixões mais elementares. O juízo moral é a posteriori, vem daquilo que existe antes do pensamento, o corpo. Do mesmo modo, como na teoria das idéias, não existe qualquer espécie de dualismo na concepção empírica de moralidade, o juízo moral sempre é a posteriori. Nesse mesmo período um dos fatos mais importantes na história da filosofia natural e das ciências foi a publicação do Philosophiae Naturalis Principia Matemática de Isaac Newton, publicado em 1687. Este livro trazia à realização de um sonho acalentado desde os pré-socráticos, ou seja, metaforicamente falando, a possibilidade de leitura da "escrita" de Deus. Na época a obra de Newton foi aceita de forma quase universal pela sua capacidade concreta de realizar previsões e de ser usada de forma prática nas ações cotidianas do ser humano. Só que, ao mesmo tempo em que realizava um sonho, acalentado desde da antiguidade, a concepção cosmológica de Newton trazia consigo um pesadelo, pois ela ia de encontro das concepções éticas vigentes. Ao conceber um universo que funcionava como um mecanismo, passível de ser não somente descrito matematicamente, mas que implicava a previsão futura de seus fenômenos, Newton praticamente "comprovou" que este universo possuía uma característica incômoda: ele era determinista, como se dizia à época, era um mecanismo perfeito. A partir do momento que a obra de Newton se transformou em paradigma do que deveriam ser as ciências, criou-se uma crise antropológica enorme. Como ficaria a questão da liberdade e da escolha do homem tão defendida na história da filosofia? A moral e a ética, neste cenário, se desmanchariam? O universo determinístico de Newton gerou um problema e trouxe novamente à baila teórica a questão do livre arbítrio do homem. Muitos autores iluministas foram influenciados pela cosmologia de Newton. A guisa de exemplo, D’ Holbach chegou admitir que o homem não possuía livre arbítrio porque era condicionado pelas leis mecânicas do universo. Ele defendeu a supressão de idéias como as de Deus, de Liberdade e imortalidade, cuja manifestação era fruto da superstição, posto que eram incompatíveis, segundo ele, com as verdades naturais do mundo material. Para D’Holbach, a liberdade do homem é uma idéia da fraqueza humana que não admite e assume a fatalidade – necessidade e universalidade - das leis naturais. Os seres da natureza aduziu o filosofo, jamais poderiam se afastar das regras certas e necessárias que decorrem da essência que receberam como seres integrantes do universo físico. O materialismo, expresso no seu livro “sistema da natureza”, descreveu o agir humano extremamente regulado pelo meio, pelas leis da natureza. Para D’Holbach, na natureza não existe mal, culpa ou moral normativa, há somente a ordem infalível das leis naturais que regula todas as coisas. Nessa perspectiva, da mesma forma como no empirismo, o materialismo comungou a idéia de fim do dualismo nas leis, negando qualquer espécie de autonomia do homem na eleição de bens morais ou qualquer disposição humana para a criação de regras para si de forma puramente racional. As leis têm matriz única que é a realidade material do universo. No caso do materialismo, o homem somente é condicionado por leis naturais e a idéia moral é simples quimera quando disposta contra tais leis. Neste cenário, Kant, grande admirador de Newton, percebeu o problema e buscou estabelecer um estatuto de cientificidade para a filosofia que "eliminasse" a metafísica dogmática e ao mesmo tempo resolvesse os problemas do determinismo na concepção materialista da moral. Kant procurou fundar uma moral na razão pura resolvendo os problemas do materialismo, do empirismo e do racionalismo. Em um primeiro momento, Kant estabeleceu o papel da experiência no âmbito do entendimento e do conhecimento. Afirmou que Deus, a Liberdade e a Imortalidade da Alma não podem ser conhecidas de forma objetiva em virtude da limitação do sujeito pensante. Na verdade, nesse primeiro procedimento, ele queria afastar as implicações problemáticas da concepção materialista da moral. Então porque ele nega o conhecimento teórico de Deus, da liberdade e da alma? Tais conhecimentos só possuem fundamento, para Kant, se estudados através de sua mediação com o agir humano, como guias de comportamento. Quando se fala de razão prática, quando a razão cria regras para o comportamento, Kant reabilita questões antes negadas na Crítica da Razão Pura. Por isso, Kant dividiu a razão em dois usos possíveis no sujeito, um uso teórico e um uso prático. Kant, portanto, somente estabeleceu o estatuto à filosofia objetiva ao contato com a experiência, mas além desse uso teórico da razão, ele não restringiu o saber à descrição das leis da natureza. Não só existe o conhecimento que pretende descrever objetos, também existem segundo Kant juízos que criam seus próprios objetos e que se relacionam com o agir humano. Existe um uso da razão que tem como objeto a própria conduta humana. Surge a crítica da razão prática. Nesse sentido, Kant percebeu outro estatuto da filosofia, a ligação prática da razão com os comportamentos humanos. O homem quando age cria juízos e guia seus comportamentos por eles. Nesse contato dos juízos com os comportamentos, as coisas em si poderiam ser pensadas. A idéia de Deus e Liberdade, antes vedadas pela Crítica da Razão Pura, são reabilitadas no uso prático da razão.
Nesse aspecto, Kant está tentando resolver os problemas abertos pelas discussões dogmáticas dos racionalistas, pelas questões céticas dos empiristas e problemas surgidos com o determinismo das leis naturais de Newton. Na crítica da razão Pura e Prática, Kant, primeiramente, está, diante da ascensão da ciência newtoniana, tentando preservar Deus, a Liberdade e a Imortalidade da Alma diante do determinismo das leis naturais.
Se a natureza, o mundo fenomênico dos objetos, é regida por leis universais e imutáveis, as descritas por Newton, qual seria o espaço para um conceito de moral fundado na liberdade e autonomia do homem? Seria a autonomia do homem fundada nas paixões? Nos bens exteriores ao indivíduo e que não foram criados por ele? Percebe-se então que os dois usos da razão foi um artifício de Kant para preservar a liberdade e autonomia do homem das conseqüências determinísticas do materialismo. Além do embate com Newton, afastado pelo dualismo do uso da razão, as questões dos racionalistas e dos empiristas eram inadequadas do ponto de vista da liberdade, segundo Kant. Para o filosofo de Koeinisberg, se o universo da individualidade humana é moral e distinto, somente o é porque o homem é capaz de agir segundo a representação de leis. O homem pode legislar a si mesmo, porque é ser racional e autônomo, ele pode destacar-se do mundo da natureza criando um mundo cultural. Kant estava imbuído em provar as questões morais do ponto de vista da liberdade do homem, e não por conta de questões utilitárias, passionais ou psicológicas. À época tentava-se provar as questões morais, ou relacionando-as às paixões, através de ponto de vista da felicidade individual, como aconteceu ao empirismo, ou relacionando-as à objetos externos, como racionalismo. Isso fazia com que as questões morais fossem hipotéticas, contingentes e guiadas pelos instintos e móbiles emocionais, ou fossem heterônomas, dispostas exteriormente ao sujeito, sendo ambas as concepções contrárias ao pleno exercício da vontade livre. Kant percebeu que os juízos morais fundados na finalidade objetiva e universal de felicidade, como nos racionalistas, ou nos desejos corporais, como nos empiristas, nunca conduziam o homem a autonomia ou a uma possível universalidade. Tanto a finalidade quando o desejo levava o comportamento à escolha de diversos móbiles de ação. Kant percebe que a única possibilidade de chegar a uma lei objetiva da moral é checar a vontade de forma pura, em si, sem levar em conta questões exteriores que só permitiam a criação de juízos hipotéticos e posteriores. Pois tais questões, percebe Kant, levavam os indivíduos nas questões morais ao determinismo, ora adorando objetos externos, ora escravos de seus corpos e emoções. Como justificar o livre arbítrio? É aqui que Kant aproveita, retoma e justifica o dualismo do deve ser e do ser, da causalidade livre e da causalidade necessária. O livre arbítrio no homem justifica-se pelo factum da razão, por sua capacidade inata de pensar além dos limites dos fenômenos, criando seus próprios objetos e guiando-se por eles. Em vista disso, o fundamento da moral não é algo exterior ao homem, mas sim o deve ser puro enquanto capacidade subjetiva transcendental que oportuniza juízos universais do ponto de vista da moralidade. É a boa vontade, uma forma moral purificada de bens e das questões contingentes da matéria. “citar algo da introdução da metafísica dos costumes” O homem não cria idéias, ele também é idéia, age de acordo com elas. A partir disso Kant descreverá como é que a razão prática enquanto forma pura, sem participação de questões contingentes, exteriores ao sujeito da ação, dispõem juízos universais sobre o comportamento moral. Kant procurou nesse procedimento provar um espaço em que o homem é livre de suas paixões, de seu egoísmo inato e de suas pressões para uma felicidade individual, e esta prova está nas regras que o homem cria, nos juízos sobre questões práticas, que são objetivas porque comprovadas pelas condutas humanas. O fato de homem condicionar-se por regras que não sofrem as limitações dos determinismos naturais é prova cabal, para Kant, da liberdade. A liberdade seria nesse caso justificada pelo dever. Nessa tarefa, Kant separa forma e matéria. Como foi estabelecido no uso teórico da razão, as categorias e as intuições puras são invariáveis, aquilo que muda é a matéria exterior que oportuniza quando descrita de forma a posteriori pelo intelecto, a consciência empírica, não transcendental. Portanto, o sujeito e suas faculdades estariam acima dos fluxos, e seriam como indeterminados transcendentalmente, seriam a unidade determinadora acima dos múltiplos das afecções, das energias, da matéria em devir, portanto, tornando os sujeitos livres no ato de conhecer a natureza e não determinados por ela. Com Kant se inaugura um uso publico da razão, cada um deve fazer uso do seu próprio entendimento, sair da menoridade e buscar se esclarecer, buscar na sua própria razão as regras para seu próprio julgar e agir. A razão passa a se autojulgar e se autolegislar. A partir disso, Kant percebe, adepto do individualismo do iluminismo, que a liberdade só é possível através do agir autônomo do homem e é esta autonomia que permitirá a coexistência dos arbítrios. Para alcançar esse fim é necessária uma consciência de si. O homem, enquanto sujeito, deve ser capaz de pensar e eleger suas próprias regras de conduta e essas regras não podem somente padecer os efeitos da particularidade, pois se fossem assim determinadas, elas só valeriam para quem as elegeu. Somente fugindo da experiência, através de juízos morais a priori é que as regras de conduta seriam válidas para todos os homens. Por isso, em Kant, a regra moral para ser universal exige que nela esteja extinta qualquer inclinação, ou vontade particular, ou qualquer busca de bens exteriores. A fundamentação da moral em Kant deveria ser de tal forma que estivesse originada no sujeito autônomo, ao contrário do racionalismo abrigado em uma noção de Deus e de bens exteriores, e, além disso, ainda fosse também capaz de emitir juízos universais de moralidade, ao contrário do homem solipcista do empirismo. A partir desses pressupostos e intenções, Kant passa a estudar os juízos dos homens sobre à moral e descobre o imperativo categórico. Kant diz que além dos juízos de aprovação e desaprovação de condutas baseados na particularidade do ser egoísta, as “máximas” descritas pelo empirismo, existe no homem a possibilidade de juízos morais válidos para todos os homens, porque produzidos de forma a priori no sujeito. Enquanto Hume só permitia na sua concepção de moralidade a construção de juízos determinados pelos desejos corporais a posteriori - sempre hipotéticos - Kant admite a produção de regras de condutas a priori, livre de determinismos da matéria e do corpo. Kant pretende comprovar a capacidade de auto-legislação do sujeito a partir das faculdades que ele possui transcendentalmente, as quais podem ser usadas objetivamente tanto para pensar quanto para agir.
A moralidade tem um valor em si, porque é um dever puro. Tem sua origem a priori na razão, e não a posteriori como em Hume. Isso postula que o dever verga a conduta de forma categórica. Ele é universal e necessário como uma lei e tem por fonte o sujeito livre das leis naturais e dos motivos e situações contingentes. A regra moral pura ordena categoricamente, e não hipoteticamente, porque quando Kant fala de algo dependente, é porque esse algo não é necessário, depende de circunstâncias ou de outros entes, como no empirismo e no racionalismo, respectivamente.
Dessa forma, o imperativo da razão é uma ordem da razão pura. O imperativo categórico mostra o que é racional em si mesmo para ser moralmente correto. Por outro lado, o imperativo hipotético revela uma ação que é um meio para consecução de determinado fim. Desse modo, Kant recupera o normativismo racionalista, embora sem os defeitos do dogmatismo, da teleologia abstrata com seus debates intermináveis e perniciosos.
Para provar a capacidade do sujeito nessa questão, como na Crítica da Razão Pura, Kant separa a forma e a matéria dos juízos de vontade. A matéria é tudo aquilo que no juízo provém das experiências, são os interesses e bens exteriores. Mas é na forma que Kant encontra a fundamentação de uma moral universal e desinteressada fundada no dever. Por isso, a crítica da razão prática chega aos imperativos categóricos que são juízos de moralidade a priori originados na razão pura prática, sem qualquer concurso da matéria ou interesses particulares e bens exteriores. Mesmo somente sendo possível um agir na experiência, a moral em Kant é fundamentada na capacidade do sujeito para o dever desinteressado. A moral é fundada na autonomia do sujeito. Essa autonomia significa a capacidade do sujeito para legislar regras para si mesmo, livre dos interesses e dos bens exteriores. Por isso, o mote do imperativo categórico: “age de tal modo que sua conduta se torne regra universal”. Do mesmo modo que ocorreu na teoria do conhecimento, Kant conciliou o racionalismo com o empirismo, na concepção moral prática de sua teoria, como no racionalismo reafirmou a universalidade das regras morais, como no empirismo, Kant disse que as regras morais dependem da constituição do sujeito, mas no caso de Kant, um sujeito abstrato, livre e autônomo, não um simples sujeito psicossomático. Para Kant todo juízo moral é limitado aos comportamentos do homem na experiência, mas nem todo juízo moral depende da matéria sensível ou somente de objetos e finalidades externas. Existem juízos morais antes da experiência, a priori. Isso somente é possível a partir do factum da razão. As categorias podem ser utilizadas para criar objetos fictícios, objetivos, nesse uso prático, em virtude de sua ligação com os comportamentos humanos. Na razão prática pura, as coisas em si são alcançadas, o conhecimento de Deus e outros objetos em si impedidos no uso teórico, são objetivos pelos reflexos que eles possuem nos comportamentos humanos. Analisando os juízos de vontade é possível perceber a contribuição do sujeito enquanto forma do dever universal, e isso para Kant é prova que o sujeito é espontâneo e não depende exclusivamente das paixões, das leis da natureza ou de finalidades heterônomas. O sujeito puro é capaz de juízos a priori de moralidade que por isso serão universais e necessários. Se a autonomia é a fundamentação da lei ética, e se o dever é a expressão dessa qualidade dos juízos morais na vontade, toda ação dependente e motivada por questões externas ao sujeito, fundada no cálculo interessado ou em bens exteriores, não é moral, elas formam máximas de condutas, juízos hipotéticos contingentes, válidos em determinadas situações. Na moral o que importa é o dever pelo dever, leis sem hipóteses ou dependências exteriores, únicas universais, fundadas na autonomia e na transcendentalidade do sujeito disposta em todos os homens. Kant continuou na mesma tradição daqueles que entendem que a moral é normativa e que não fica adstrita aos laços com a matéria do corpo e com as experiências concretas. Por que para o filosofo de Koeinisberg se não fosse assim o homem não seria autônomo. Por isso, Kant negou os efeitos do sentimento nas questões morais. A única diferença de sua teoria para os racionalistas foi fundar a moral no sujeito autônomo. É obvio que tentou provar que o homem constituiu um mundo todo seu, dependente somente de sua racionalidade. É nessa autonomia é que o homem diferencia-se do animal que age pelos instintos naturais. Nessa linha de raciocínio Kant faz uma crítica a Hume que tinha comparado o homem aos outros animais nos motivos que levam ambos a agir. Para Hume, tanto o homem quanto animal são guiados exclusivamente pelo princípio do prazer – deve-se evitar a dor e buscar o prazer – na busca da conservação pessoal. Ao contrário, Kant nega total interferência dos sentimentos no agir moral e postula a capacidade do homem para o agir livre de motivações particularistas e solipcistas. O homem não é somente natureza, ele também é razão, cria leis para si porque possui tal faculdade, isso é provado pelas regras morais e pela criação de objetos além da experiência que possuem contatos com os comportamentos. O homem é autônomo, além das leis naturais que regem a natureza, o homem possui um espaço de liberdade e tal liberdade é provada pelo dever. Com Kant, o homem deve negar os impulsos de seu corpo para agir moralmente. O sujeito abstrato, a consciência de si, é a única fonte legítima de leis morais validadas universalmente. Somente a Crítica da razão prática pura é capaz de comprovar condutas não solipcistas. O homem abstrato deve domar o homem empírico.

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