domingo, 21 de fevereiro de 2010

Anotações sobre a Metafísica de Aristóteles I




Ao se ler a Metafísica de Aristóteles se tem a impressão que ele explorará com precisão a questão do ser em si. Diante das propagandas iniciais do livro, das críticas à filosofia anterior, parece que o objeto em si, a substância, será captada com maestria. Surgem várias dificuldades. A primeira é - quero comentá-la nesse apontamento - como apresentar o objeto em si se ao apresentá-lo devo recorrer à linguagem. Embora essa seja uma dificuldade recorrente na obra, Aristóteles a todo tempo foge dela. Se o ser é qualidade das coisas particulares, é uma realidade determinada e una, como é que pode ser una e diferente ao mesmo tempo. Uma casa, um carro, são realidades por si e são diferentes ao mesmo tempo. Como o ser enquanto ser deve está em tudo. Se o ser deve ser uma realidade determinada, como é que o ser enquanto ser é algo uno. Como é perceptível a teoria de Aristóteles entra em algumas dificuldades. Voltando a questão da verdade e o modo de dizê-la, implícita na argumentação acima, é necessário investigar, de plano, o porquê Aristóteles dá tanta ênfase ao princípio da não-contradição. O dizer e o ser em Aristóteles devem ser correspondentes para que se tenha essa necessidade de comprovação do axioma desse método, segundo Aristóteles, infalível. É aqui que justamente vejo um problema. A definição em Aristóteles é o modo de captação da substância. Por isso não se pode atribuir a uma substância noções contraditórias. Uma definição, para que ela consiga captar a existência, o ser de determina coisa, deve está fora de discussão, deve expressar o ser por si. Ao trabalhar o axioma da não-contradição, Aristóteles parece dizer, implicitamente, que para captar o objeto em si, é preciso resolver problemas do discurso, ou seja, que o objeto depende dos modos de expressão da fala, que no caso da ontologia, petita principio, deveria ser uma questão exterior ao ser em si, embora imprescindível para expressá-lo. Aristóteles procura separar o ser do logos, mas recorre a um princípio tipicamente discursivo. Como uma definição pode expressar a realidade das coisas particulares ou mesmo o universal nelas contido. Por exemplo, se eu penso em uma maçã com base no raciocínio Aristotélico, pergunto o que a torna uma realidade por si, um ser. Com base em seu pensamento, determino, a maçã é uma realidade que é diferente do caju e da manga e das outras frutas. Ela é uma determinada realidade do gênero frutas. Ela é unidade enquanto maçã. Mas não existem maçãs verdes, vermelhas, porque a maçã seria una, se existem diferenças que marcam no nosso pensar as maças existentes. Então, a realidade da maçã deve ser determinada no pensamento através de uma definição que deve delimitar o porquê a maçã é uma realidade diferente das outras coisas. A definição deve captar o objeto em si mesmo. E qualquer definição não pode esbarrar no princípio da não-contradição. É por esse motivo que Aristóteles inclui na teoria da substância a verdade e o falso como uma dos significados da substância. Mas Aristóteles descarta esse significado. Diz que ele é ainda subjetivo, não expressa a coisa fora do discurso. E essa é uma questão que Aristóteles não responde e se responde é com muitos subterfúgios. O nominalismo pegará no pé dele por causa disso. Definição, sujeito e objeto. Signo, significante e significado. Aristóteles busca o real. Então pensemos que nem Frege. Concordemos, a definição determina o ser da coisa. Esqueçamos por enquanto essa dificuldade. O interessante é que por esse motivo Aristóteles descarta o acidente das coisas existentes no mundo. O  problema é que o acidente faz parte das coisas particulares. Anderson tem a pele branca. Se ele tem realmente a tez dessa cor, o predicado realmente expressou seu ser. Quando relacionada à determinação do universal de determinado tipo de coisa, os acidentes criam diversas dificuldades. O acidente não permite a ciência. Não existe definição e captação do ser se fossem incluídos os acidentes na definição. Se fossemos definir uma maçã, teríamos, com base em Aristóteles, de buscar uma qualidade que somente a maça possui como gênero fruta, algo que a torne determinada, uma realidade por si, independente das outras coisas. O acidente não permite individualizar uma determinada coisa. O acidente é predicado de tudo. Aqui se chega a uma abstração. Todas as coisas particulares possuem acidentes, isso é irretorquível. Desse modo, é como se Aristóteles tivesse atribuído a condição de acidente tudo que escapa depois da definição. Nessa questão o empirismo criticará o realismo antigo e racionalista. É a partir do acidente, impregnado nas coisas particulares, que os empiristas destruíram a noção de universalidade da substância. Dirão os empiristas, não existe universal, o que existe sempre é o particular juntamente com seus acidentes no nosso pensamento. A partir dessa perspectiva, Aristóteles se contrapôs ao sofismo. Para Aristóteles os sofistas fazem uma ciência a partir dos acidentes. É o acidente que torna as coisas relativas a um referencial, um observador. Essa dificuldade é resolvida por Aristóteles com o seguinte argumento: o acidente não faz parte da essência da coisa, aquilo que torna a coisa um ser, uma unidade na multiplicidade. Volta-se a mesma dificuldade anteriormente suscitada. É a essência, que passa pela definição, pela forma, que estabelece o ser. Mas a essência não depende do discurso? O verdadeiro e o falso, o discursivo, deveria ser uma questão melhor explorada na teoria da substância. Quando se chega a uma definição exata da coisa, a necessidade a torna apta para captar a especificidade do ser. Nota-se, portanto, o porquê do princípio da não-contradição. Se fossemos vasculhar mais, Aristóteles que pretendia um realismo, nada mais fez que suscitar aporias que depois seriam debatidas por outras correntes do pensamento filosófico. O que torna uma coisa particular una, determinada, igual a todos os observadores. O terceiro excluído, a própria coisa. Isso será uma questão central nos debates filosóficos. Mesmo que diversos observadores captem determinada essência de uma coisa, que estejam informados dos princípios do ser enquanto ser, o que garante que a definição chegou a realidade? Creio que há uma grande dificuldade nisso tudo. Aristóteles pensa assim. O verdadeiro e o falso giram fora da coisa. Quando uma definição capta a realidade de determinada substância ela unifica o olhar de todos os observadores. É por isso também que o acidente sai da coisa, de sua realidade. O acidente relativiza. O problema é que toda coisa particular detém em si acidentes. O múltiplo e uno, o olhar e os olhares convivem juntos. Estranho não é? A filosofia antiga era assim. Girava em torno da noção de ser. A finalidade era captar a unidade. Nos dias atuais a moda é a denúncia desses modos históricos de ver o mundo. Canta-se, se fossemos falar com as categorias de Aristóteles, o particular, o acidente e o relativo.

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